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[excerto] Lilith: Amada, porém rebelde



O Princípio - Amada, porém Rebelde

"As lendas judaicas falam sobre como tudo começou. Adão, após ter sido criado por Deus, sentiu-se só. Tais lendas são baseadas em textos do “Zohar” ou ‘Livro do Esplendor’.[1]

Alguns textos rabínicos referem-se a Adão como um ser andrógino, um ser macho-fêmea. Depois teria sido separado, sendo a sua contraparte feminina chamada Lilith. Pelo menos é que diz o Livro do Esplendor neste trecho:

Rabi Abba disse: O primeiro homem era macho e fêmea ao mesmo tempo pois a escritura diz: E Elohim disse: façamos o homem à nossa imagem e semelhança (Gên. I, 26). É precisamente para que o homem se assemelhasse a Deus que foi criado macho e fêmea ao mesmo tempo.[2]

Para os cristãos esse trecho da literatura judaica deve parecer extremamente absurdo, visto que no Gênesis não existe tal afirmação. Entretanto, para ilustrar o mito, continuemos em nossa busca de informações na literatura judaica a respeito dessa mulher-demônio-arquétipo.

Segundo o Alfabeto de Ben Sira, da literatura judaica medieval, após ter sido criado, o andrógino Adão foi separado de sua “parte”, de sua “outra metade”, que foi chamada Lilith.

Era a bem-amada, a querida esposa de Adão. Entretanto, como uma rebelde e independente que era, Lilith não queria a submissão... Por que deveria sujeitar-se ao seu marido, como se ele fosse seu amo e senhor? Por que ele deveria “ficar por cima dela” (uma referência a uma posição do ato sexual, em que o homem fica por cima). Ela diz não. Ela quer inverter os papéis, quer ficar “por cima”.

Essa rebelião simbólica sobre uma posição sexual diz simplesmente tudo sobre o caráter da emancipada esposa: Ela quer igualdade de condições.
Como não é atendida, ela abandona o marido apaixonado, que irá chorar e lamentar-se.

Voltando-se para seu Deus, Adão clama e pede que Ele o auxilie e traga de volta sua bem-amada.

Deus, atendendo ao clamor de seu filho, envia três anjos para buscarem Lilith, que se tinha ido em direção ao Mar Vermelho. Os anjos chamavam-se Senoi, Sansenoi e Samanglof e quando encontraram a rebelde, ela estava às margens do mar.

Entretanto, ela se recusa a voltar para Adão e os anjos a advertem quanto a isto, de que ela morreria se recusasse.

E como poderei morrer, se Deus mesmo me encarregou de me ocupar de todas as crianças nascidas homens, até o oitavo dia de vida, a data de sua circuncisão, e das mulheres até os seus vinte anos?[3]

Lilith, não mais mulher, não mais humana, mas convertida em um demônio sedento de sangue infantil, amaldiçoada por Deus, agora terá como objetivo a destruição dos lares humanos. Perseguindo as mulheres jovens e os meninos recém-nascidos, ela irá odiar a raça humana pelo resto de seus dias.

Jeová então, a deixa ir para junto de Samael (Satanás), o demônio, de quem ela passou a ser a quarta esposa.[4]

Desde então, ela passou a gerar milhões de demônios. Cem por dia, sempre de acordo com Ben Sira, fruto de sua paixão com Satanás e, segundo as lendas judaicas, como vingança contra Adão – que recebeu outra esposa do Criador, a dócil e gentil Eva, ela será a perdição de todos os homens solteiros.
Seus filhos demoníacos foram os liliotes, linilins ou lillims, que são também citados na Bíblia.

 Outras versões da lenda dizem que os três anjos enviados pelo Deus Pai teriam matado os filhos que ela tivera com Adão e que por isso ela teria se rebelado[5], tornando-se maligna a ponto de acasalar-se com os demônios da perdida e devastada Edom.

Não conseguindo fazê-la retornar, já que ela teria assumido plenamente sua nova natureza diabólica, os três anjos fizeram-na assumir um pacto: O de não matar nenhuma criança que carregasse em si um amuleto com os nomes dos anjos, Senoi, Sansenoi ou Samanglof. Assim foi feito.

Entrementes Lilith nunca perdoou a espécie humana, descendente de Adão.

De acordo com outras versões rabínicas, foi Lilith, juntamente com Samael (Satã) quem corrompeu o primeiro casal – Adão e Eva. Satã, metamorfoseado em serpente – que não era a cobra, mas um animal que andava sobre duas pernas e tinha uma grande semelhança com o ser humano – enrodilhou-se em torno da Árvore fatídica do Bem e do Mal, falando a Eva, lançou-lhe sua sedução e, finalmente seduziu-a sexualmente. E Lilith para completar a missão maldita, ajuda o amante Samael a convencer Adão.

As tradições rabínicas a esse respeito falam de um ser demoníaco e andrógino, o Leviatã que seria, como macho, "serpente insinuante" (Samael ou Satanás) e como fêmea, "cobra tortuosa" (Lilith).[6]

Graças a essa terrível conspiração contra o Deus Pai e a raça humana – entre tantos crimes, Lilith e Samael teriam também engendrado o ódio que Caim sentia por seu irmão Abel – o casal de seres infernais será totalmente aniquilado quando chegar seu tempo, ou seja, no final de tudo:

"Nos tempos que virão o Altíssimo (bendito seja!) decapitará o ímpio Samael, pois está escrito (Is. XVII, 1): 'Nesse tempo Jeová com sua espada terrível visitará Leviatã, a serpente insinuante que é Samael e Leviatã, a cobra tortuosa que é Lilith'.[7]

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[1] O Zohar ou Livro do Esplendor, também Sepher Ha-Zohar, foi escrito pelo Rabi Shimon bar Yochai, é considerado como a principal obra da Cabala, inacessível para a maioria das pessoas e fonte de ensinamentos místicos e segredos recebidos diretamente de Deus pelos patriarcas hebreus.

[2] Il libro dello Zohar, org. por J. De Pauly, Atanor, 1978. 14

[3] Alpha Beta, cit. por Ervin György Patai

[4] Paul Louis Bernard Drach, De l’harmonie de l’Église et de la Synagogue

[5] Lilith, artigo por Shirley Massapust.

[6] Sepher Annudé-Schib-a, fol. 51 col. 3 e 4

[7] Sepher Emmeck-Ameleh, fol. 130, col. 1, cap.XI
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Borges, J. (2013). Os Amores de Lilith (1 ed.). (A. &. Livros, Ed.) Curitiba, PR: Clube de Autores.

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